Casos de Família, de Ilana Casoy

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"Crimes de família não são como crimes comuns, do cotidiano, da vida mundana, da maldade caricata. Crimes de família são feito sacrilégio - rompem a última barreira, tornando-se insuportáveis, intoleráveis, incompreensíveis, impensáveis." (Pág. 468)


Casos de Família reúne dois livros já publicados por Ilana Casoy acerca dos casos Richthofen e Nardoni: O Quinto Mandamento e A Prova é a Testemunha, respectivamente. Esses crimes que chocaram a população brasileira e marcaram o contexto policial e jurídico do país foram acompanhados pela criminóloga, também autora de obras famosas sobre serial killers, com fins literários. Nessa edição, além dos arquivos dos casos encontram-se documentos, como a íntegra da denúncia de ambos e os laudos do necrotério, e anotações inéditas feitas pela própria Ilana durante as investigações. 

Como o título sugere e como, eu acredito, é de conhecimento geral, ambos os crimes ocorreram no âmbito familiar. O caso Richthofen diz respeito ao assassinato de Manfred e Marísia von Ritchthofen planejado por Suzane von Richthofen, filha do casal, e executado por Daniel e Cristian Cravinhos, namorado e cunhado da jovem, respectivamente. Já o caso Nardoni corresponde ao homicídio da garota Isabella Nardoni, aos cinco anos de idade, cometido por Alexandre Nardoni, seu pai, e Anna Carolina Jatobá, sua madrasta.


A abordagem feita pela escritora é diferente em cada livro. Em O Quinto Mandamento, creio que devido à confissão de Suzane e dos irmãos Cravinhos, foi possível realizar uma descrição do crime com detalhes, desde a ideia até a execução. Ilana narra os acontecimentos a partir do dia 30 de outubro de 2002, quando os assassinatos foram efetuados, até o dia 8 de novembro do mesmo ano, abrangendo todo o processo de investigação e também uma reprodução simulada do ato, que inclusive é registrada na obra com várias imagens. A leitura dessa parte é bastante ágil, já que o formato da narrativa lembra romances policiais, com a diferença de que este de fato ocorreu. Após as fotos da simulação, há a transcrição de debates no tribunal do júri, segmento um tanto arrastado devido a todas as formalidades, mas muito interessante por mostrar as linhas seguidas tanto pela acusação como pela defesa e essencial para aqueles que pretendem cursar ou já realizam a faculdade de Direito. 

Já em A Prova é a Testemunha, a autora narra os cinco dias de julgamento do caso Isabella Nardoni, que durou de 22 à 26 de março de 2010, sendo que o crime ocorreu em 2008. Apesar de tratar de interrogatórios e se assemelhar em alguns aspectos aos debates do caso retratado no livro anterior, essa parte possui uma leitura mais fácil, pois é contada com as palavras de Ilana, que obteve permissão do juiz para assistir ao processo e registrar através de anotações aquilo que julgasse necessário, o que é muito bacana pois permite ao leitor ter conhecimento dos pensamentos da autora durante aquela situação. Ainda assim, a primeira metade dessa parte é um tanto cansativa devido a depoimentos ricos em detalhes técnicos, enquanto a segunda é mais ágil pois consiste no interrogatório dos réus.


Outro ponto interessante do livro são as observações feitas por Ilana Casoy em relação aos comportamentos dos réus. Devido ao fato dessa edição possuir arquivos de dois casos, é possível fazer comparações entre eles, principalmente entre os culpados dos crimes. Suzane, Daniel e Cristian confessaram os assassinatos; Alexandre e Anna Carolina negaram até o fim. Sendo assim, no caso Richthofen o leitor fica chocado com a capacidade desses jovens de cometer algo tão bárbaro e falar sobre com a maior naturalidade, enquanto no caso Nardoni há uma incredulidade quanto à ideia do pai e da madrasta de Isabella de que as suas versões da história, tão modificadas ao longo do processo, pudessem ser vistas como verdade pelo júri.

Como mencionei anteriormente, os dois casos foram extremamente marcantes. A imprensa noticiou grande parte das investigações e a todo momento esses crimes eram comentados. Na época do julgamento Richthofen eu tinha 6 anos de idade, por isso não acompanhei o seu desenrolar, de modo que a minha curiosidade tornou a leitura da primeira parte do livro mais rápida. Como eu já tinha 10 anos durante o julgamento dos Nardoni, acabei assistindo a várias reportagens e ainda me lembrava de praticamente todo o processo, portanto a segunda parte da obra foi um pouco mais arrastada.


Casos de Família é um livro excelente para quem quer ter acesso a detalhes desses dois crimes que se tornaram marcos da história policial e jurídica brasileira. A edição está super completa, contendo não só as narrações das investigações e dos julgamentos, mas também as denúncias e sentenças na íntegra, laudos do Instituto Médico Legal, imagens da reprodução simulada do caso Richthofen e do laudo final da perícia do caso Nardoni e, no final de cada arquivo, os facsimiles dos diários de Ilana Casoy utilizados durante os processos, páginas que permitem ao leitor ter acesso ao raciocínio seguido pela autora e as suas reações, emoções, no desenrolar dos acontecimentos.

Esse foi o meu primeiro contato com a Ilana Casoy e foi uma ótima surpresa. Como o livro trata de casos judiciais, os arquivos demandam vários termos técnicos, porém a escrita da autora é bastante acessível, de modo que em vários momentos são feitas explicações de detalhes para o leitor. A criminóloga realizou um ótimo trabalho e através de Casos de Família é possível perceber a sua dedicação, tanto ao ramo policial quanto ao literário. Fiquei com muita vontade de conhecer as outras obras da Ilana.

"Não pude deixar de notar o 'ato falho' que comete nesse relato, quando conjuga o verbo subir na primeira pessoa do plural - 'Subimos para o apartamento' - e imediatamente se corrige - 'Subi com a Isabella'. A pessoa se entrega na linguagem, mostra quem ela é num lapso, nos deixa vislumbrar verdades escondidas. Será? Era uma hipótese para a qual talvez jamais tenhamos resposta." (Pág. 376)


Minha Estante #89
Título: Casos de Família
Autor (a): Ilana Casoy
Páginas: 560
Editora: DarkSide Books
Nota: 5/5
Onde comprar: Amazon | Americanas | Submarino


Já leram Casos de Família ou outro livro da Ilana Casoy? O que acharam? Me contem nos comentários! 
Beijos e até a próxima!

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2 comentários

  1. Oi, Gabi!
    Nos dois casos eu já era um tanto velha e fiquei bastante chocada com tudo que aconteceu.
    Infelizmente, o livro não despertou meu interesse por agora..
    Beijos
    Balaio de Babados

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Luiza! O livro é muito bom, porém como você ainda lembra bastante do caso a obra pode ser bem repetitiva. Beijos ♥

      Excluir

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