A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera

19:08:00


"Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado é negativo. Teria ou não teria razão? A questão é essa. Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições." (Pág. 11)


Conhecem aquele poema "João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim(...)"? A trama que serve de base para A Insustentável Leveza do Ser é mais ou menos assim. Teresa é casada com Tomas e completamente apaixonada por ele. Tomas ama Teresa, mas apesar de ter por ela um sentimento verdadeiro, não é capaz de abandonar o desejo e a necessidade de possuir outras mulheres. Uma dessas amantes é Sabrina, uma artista que vê a traição como algo essencial na sua vida. Por fim, além de Tomas, Sabrina mantém relações com Franz, um professor casado que já não tem um bom convívio com sua esposa.

Apesar de esse ser o enredo que permite o desenvolvimento do livro, ele não é contado da mesma maneira que um romance comum. A vida de cada um desses personagens é retratada aos poucos, de forma intercalada, variando não só o protagonista, mas também a abordagem daquele que narra a obra. Além de apresentar a história e aqueles que fazem parte dela, o narrador promove questionamentos e reflexões expondo seus próprios pensamentos, demonstrando sua opinião em relação a determinada temática. Isso muitas vezes traz a sensação de que o autor está revisando o seu livro e acrescentando coisas novas, visando complementar a sua versão final.


Com um grande teor filosófico, A Insustentável Leveza do Ser possui tanto um lado erótico, como um histórico. O Milan Kundera conseguiu através de uma só obra abordar com maestria assuntos tão diferentes e que, apesar de parecerem distantes, dizem respeito a existência do ser humano. Em dados momentos ele utiliza seus personagens para falar sobre o amor, relações sexuais e as sensações, os sentimentos e mudanças provocados por elas. Em outros ele fala sobre revoluções, movimentos sociais e como os sistemas políticos afetam a vida das pessoas. 

O modo como esse livro foi desenvolvido me tirou da zona de conforto e me propôs inúmeras reflexões durante a leitura. É difícil não querer marcar cada questão levantada e não parar para pensar nos vários pontos explorados por ele. Como já disse, diversas vezes o narrador parece se intrometer na história e com isso ele acaba divagando bastante. Cada uma dessas divagações me fez questionar diferentes aspectos e me fez reler parágrafos na tentativa de entender cada detalhe que havia sido dito. Essa é uma daquelas obras que precisa ser lida mais de uma vez e cuja cada releitura é capaz de proporcionar novas interpretações.

Apesar de ter amado todos esses pensamentos e toda essa vontade de pensar na vida que o livro me trouxe, faltou algo. Mesmo tendo gostado muito da leitura, senti falta de uma conexão maior com os personagens e suas histórias. Nos momentos em que a narrativa ia para o lado da revolução e dos conflitos políticos existentes naquele determinado ambiente eu não conseguia me conectar, fazer parte daquilo. Diversas vezes me senti um tanto distante da trama e por conta disso acredito que não absorvi tudo que o autor visava transmitir com sua obra. No geral, A Insustentável Leveza do Ser é muito bom. Um dia, quem sabe, eu faça uma releitura e consiga me conectar melhor com ele. 

Como o livro possui tantas passagens bacanas e que me propuseram tantas reflexões, decidi compartilhar algumas delas com vocês.


"Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quasro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro. 
(...) Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca." (Pág. 14)

"E ele dizia consigo mesmo que a questão fundamental não era: sabiam ou não sabiam? Mas: alguém é inocente apenas por não saber? um imbecil sentado no trono estaria isento de toda responsabilidade pelo simples fato de ser imbecil?" (Pág. 172)

"E, de novo, veio-lhe à cabeça uma ideia que já conhecemos: A vida humana só acontece uma vez e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só poderemos decidir uma vez. Não nos é dada uma segunda, terceira, uma quarta vida para que possamos comparar decisões diferentes." (Pág. 218)

Minha Estante #6
Título: A Insustentável Leveza do Ser
Autor (a): Milan Kundera
Páginas: 312
Editora: Companhia das Letras
Nota: 4/5
Onde comprar: Amazon | Americanas | Extra | Saraiva | Submarino 




Já leram esse livro ou algum outro do Kundera? Me contem como foi a experiência de leitura de vocês! 
Beijos e até o próximo post!

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4 comentários

  1. Oi, Gabrielle!
    Eu li esse livro há alguns anos e também foi uma leitura totalmente fora da minha zona de conforto na época. Fiquei com a mesma sensação de não ter absorvido tudo o que o Kundera queria passar e há tempos tenho vontade de reler. Os quotes que você separou são maravilhosos.

    Beijos, Entre Aspas

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    Respostas
    1. Oi, Carla! Esse livro é cheio de passagens maravilhosas, né? Espero reler algum dia. Beijos ♥

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  2. Gabi, como você escreve bem! To encantada!

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    Respostas
    1. Ah, obrigada, Jéssica! Fiquei muito feliz com o seu comentário! Beijos ♥

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